Fundos hedge em tempos de juros baixos

Ficaram para trás os dias em que era fácil ganhar dinheiro no mercado de capitais brasileiro. Antes de 2016, durante um bom tempo, o investidor não precisava optar entre a maior segurança e maior rentabilidade, evitando assim o clássico dilema de qualquer aplicação. Bastava colocar seus recursos para se multiplicarem com os juros elevadíssimos. Desde o final daquele ano, no entanto, o Banco Central, animado com as perspectivas favoráveis no front inflacionário, colocou em prática uma política de redução constante da Selic – a taxa básica de juros, que influencia o patamar do custo do dinheiro.

Momento excelente

A nova realidade obrigou o investidor a se mexer. A partir daquele momento, para obter rentabilidade maior, deveria correr certos riscos. É nesse contexto que os fundos hedge tiveram em 2017 o melhor ano de sua história no país. Apesar de recuos mais recentes, a confiança dos investidores permanece alta, o que leva a crer que a tendência de rentabilidade será mantida. Até então, pouca gente, além dos profissionais do mercado, poderia discorrer com propriedade sobre os fundos hedge. Hoje, muitos aplicadores sabem que esses fundos, também chamados de multimercado, são uma forma de investimento que compete com os tradicionais, como Bolsa de Valores, renda fixa e fundos de investimentos em ações.

Risco variável

Os fundos hedge estão muito associados à percepção de alto risco. Mas essa noção não corresponde totalmente aos fatos. Na realidade, o risco varia de acordo com o desejo de cada investidor de se expor mais ou menos. Alguns têm risco considerado baixo, mas outros carregam riscos elevados (com possibilidade de retorno idem).

Trata-se de um mercado em que há poucas restrições, Os fundos podem, por exemplo, investir simultaneamente em vários tipos de ativos, como ações, renda fixa e derivativos. Tal flexibilidade objetiva limitar os riscos. Ao colocar os ovos em diferentes cestas, o fundo pode lucrar independentemente da situação do mercado. Mas, dito isto, é claro que se trata de um mercado em que a especulação é inerente ao seu mecanismo.

Constituição dos fundos

Como os fundos hedge se formam? Basicamente, através da participação de vários investidores. Juntos, eles capitalizam o fundo, cuja gestão fica a cargo de uma empresa especializada. O administrador tem liberdade para investir o dinheiro como melhor imaginar. Mais adiante, reparte os lucros (ou os prejuízos), de acordo com um contrato estabelecido entre as partes.



Universo de trilhões

O setor lida com cifras com muitos zeros. No ano passado, os fundos hedge registraram entrada líquida de R$ 97 bilhões, cinco vezes mais do que no ano anterior. O volume foi maior do que qualquer outro tipo de fundo, segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). No total, os fundos captaram a marca recorde de R$ 263 bilhões. A participação dos fundos hedge no Brasil é expressiva. No mundo, do total de ativos sob gestão (equivalente a R$ 4,2 trilhões), 21% estão alocados em fundos de hedge.

Perspectivas

As incertezas provocadas pela proximidade da eleição presidencial não têm assustado os investidores? Muitos tenderiam a ser mais conservadores?

Não é o que os números mostram. Na realidade, depois do fim da recessão, os investidores estão mais confiantes nas perspectivas da economia brasileira. A recuperação tem sido lenta, mas os indicadores são suficientes para os investidores se animarem a ir além do porto seguro das aplicações em renda fixa. De qualquer maneira, como se trata de um mercado especulativo, os responsáveis pelos fundos poderão até aproveitar a volatilidade provocada pelas eleições para obter maior rentabilidade.

O otimismo do mercado em relação à eleição está associado à perspectiva de vitória de algum candidato que defenda uma agenda de reformas liberais. A incógnita ainda é grande, mas algumas variáveis já não são mais possíveis, como a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que será inviabilizada pela lei da Ficha Limpa. Acredita-se que se um candidato comprometido com as reformas vencer poderá haver mais um rali nos mercados brasileiros, com vantagem maior para quem investir antes.

Forte desempenho

O início de ano foi animador. A tendência de 2017 se manteve no primeiro trimestre deste ano. O forte deslocamento de recursos dos produtos mais tradicionais para os fundos de hedge não acabou. No primeiro trimestre, a indústria de fundos de hedge registrou ingressos líquidos de R$ 33 bilhões. A continuar nesse ritmo, o recorde do ano passado será quebrado mais uma vez.

O momento é bom, mas não chega a ser atípico. Para chegar a essa conclusão, basta atentar para o desempenho médio dos fundos hedge. Desde 1994, o desempenho médio desse tipo de fundo nos Estados Unidos foi de cerca de 11%. O Brasil acompanhou a tendência.

Atenção das autoridades

Os investidores devem conhecer as regras do jogo. Em primeiro lugar, é preciso saber que os fundos podem assumir a forma jurídica de uma sociedade limitada. Ou seja, na hipótese de um fundo fazer a postar errada e ir à falência, os credores não poderão ir atrás dos investidores, independentemente de quanto tenha sido investido.

As empresas gestoras dos fundos hedge costumam informar seus clientes sobre as características do mercado. Algumas delas são bem conhecidas: há pouco controle por parte de agências reguladoras; as informações sobre desempenho são publicadas de acordo com as regras do próprio fundo; os fundos hedge permitem investimentos ousados em geral proibidos aos demais fundos, como vendas descobertas, aplicação em derivativos financeiros e alto grau de alavancagem; os fundos não precisam de reservas mínimas de dinheiro, podendo, portanto, investir todo o capital disponível; e cobram comissões em função do capital investido e dos resultados obtidos. Em geral os fundos hedge como 2% ao ano a título de remuneração, mais 20% dos lucros, que é a chamada taxa de performance.

As regras do jogo

Apesar de haver pouco controle, as autoridades estão mais atentas ao comportamento dos fundos desde a crise financeiro americana de 2008, que teve reflexos no mundo todo. Essa crise levou autoridades de todo o mundo a repensar seus modelos de regulação sobre fundos de investimento alternativos, como os fundos hedge. Na Europa, por exemplo, houve a regulação de certos instrumentos usados pelos fundos, como a grande capacidade de alavancagem. Esse maior controle, se é um limitador do retorno, também oferece mais segurança ao investidor.

Venda a descoberto

Uma das características do fundo hedge, como dito, é a possibilidade de vender a descoberto. Isso pode ser uma grande vantagem. Com a possibilidade de explorar a flexibilidade de venda a descoberto (seja de empresas ou ativos), desenvolve-se um perfil de risco neutro em face de choques de mercado generalizados.

Os investidores que decidem arriscar parte do patrimônio em fundos hedge devem estar cientes dos possíveis resultados adversos. Estatisticamente, é improvável ganhar sempre e muito. Às vezes ganha-se menos. Às vezes não se ganha.

Mercado de câmbio

É ilustrativo, por exemplo, o que aconteceu no mercado de câmbio nos Estados Unidos no ano passado. Os fundos hedge americanos focados em câmbio tiveram fortes perdas, e continuaram se dando mal no início deste ano. Os gestores podiam prever comportamentos do mercado, mas não os do presidente Donald Trump com seus tuítes imprevisíveis. Nesse front, a perspectiva de uma guerra comercial turva o horizonte do crescimento mundial e pode continuar prejudicando os fundos hedge focados em câmbio.

Mercado de bitcoins

Outro exemplo são os fundos investem em bitcoins. No ano passado, com a forte valorização desse ativo, dezenas de fundos foram lançados e muitos investidores foram atraídos para as criptomoedas. Houve até certa euforia no mercado. Desde o final do ano, no entanto, houve uma reversão dessa valorização. Mas, quando se trata de investimentos, só vale a pena olhar para o retrovisor se isso ajuda a caminhar para frente. No caso das bitcoins, ainda há otimismo no mercado. Se as cotações caíram, talvez isso seja apenas uma oportunidade para comprar.

Oportunidade interessante

Em que pesem os reveses, os fundos hedge ganharam nas últimas décadas uma projeção inigualável entre as diversas formas de aplicação. No início dos anos 90, o volume global de ativos geridos pelos fundos hedge era inferior a US$ 200 bilhões. Hoje chega a US$ 1,2 trilhão, quantia administrada por mais de 9 mil fundos.

A conclusão é que os fundos hedge oferecem uma oportunidade bastante interessante de maior rentabilidade, sobretudo em tempos de juros baixos. É preciso cautela, claro, mas a alternativa pode valer a pena. Não há dúvida de que os fundos hedge introduziram um novo estilo de investimento – e vieram para ficar.

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